Antes de começar a praticar Yôga, eu nunca tive curiosidade em conhecer a Índia. Não me chamava a atenção. A principal informação que eu tinha era de uma prima do meu pai que havia estado lá e passara os dias trancafiada no hotel. A miséria, a sujeira e a comida fortemente condimentada foram demais para ela.
Hoje, sendo um profissional da área, até tenho vontade de ir, mas não faço questão. Só irei se estiver acompanhado de brasileiros que já conheçam bem os caminhos das pedras daquele país.
Em primeiro lugar, é preciso dizer que ir à Índia não é necessário para aprender o Yôga legítimo. Comparando, você não precisa ir à Inglaterra para aprender futebol, ou ir ao Japão para fazer Jiu-Jitsu, nem ir à Roma para estudar Direito.
É claro que poderia expandir seus conhecimentos indo aos seus lugares de origem, mas não é imprescindível. No nosso caso, isso é ainda mais forte. A Índia foi tantas vezes invadida, colonizada e dominada durante seus mais de 5.000 anos de História, que hoje em dia é difícil encontrar o Yôga autêntico por lá. Ainda mais para nós ocidentais. Por incrível que possa parecer, é mais fácil encontrá-lo no Brasil, Portugal ou Argentina.
Outro motivo para não se ir à Índia à toa é que esta é uma aventura perigosa. Não estou brincando. São muitas as histórias de viajantes que se deram bem mal na “terra dos sábios”. Já conheci alguns.
A escritora indiana Gita Mehta publicou um livro essencial para quem pretende fazer essa viagem: Karma-Cola. O título é provocativo e faz alusão ao fato de que milhões de ocidentais, ao longo de décadas, têm ido à Índia para consumir a sua cultura milenar e encontrar de alguma forma a paz interior que não têm em suas casas. Do outro lado, um número equivalente de indianos se aproveita disso para explorar de todas as formas possíveis os desavisados turistas. Há, ainda, aqueles que não gostam de ver sua terra invadida por essa gente consumista e imatura. Gita Mehta relata histórias verídicas sobre esse choque cultural.
Infelizmente, emprestei o meu exemplar para alguém que nunca devolveu e não o tenho à mão enquanto escrevo este texto (cobre-me sobre este tema para um próximo post: astêya, o preceito ético da honestidade).
O relato que mais me marcou foi da moça estadounidense que logo ao desembarcar no aeroporto atrás de um “Guia Espiritual” foi abordada por um indiano aparentando ser bondoso e “espiritualizado”. Prontamente, o local se dispôs a levá-la às montanhas, onde encontrariam o Mestre. Alegre com a feliz coincidência, já imaginando estar tudo predestinado, a incauta jovem seguiu-o. Para resumir, ela foi presa por bandidos numa caverna, onde foi surrada, drogada e estuprada por semanas até que conseguiu fugir.
O livro é ótimo e possui muitos casos reais. Alguns horríveis como o que citei, outros apenas tristes, outros cômicos ou ridículos e absurdos, mas todos com algo em comum: a tremenda dificuldade de comunicação entre os paradigmas ocidentais e indianos (excetuando alguns pouquíssimos ocidentais e os indianos educados na cultura ocidental, como é o caso da própria autora).
Para concluir, digo para você que acho a Índia um lugar fascinante. Sei que há muita coisa boa por lá. Sei que existem sábios, santos e Mestres verdadeiros andando pelas ruas naquele país. Porém, sei também que eles são praticamente inacessíveis para nós ocidentais e que o melhor que podemos esperar de um curso, encontro ou viagem pretensamente filosófico é que seja inócuo. Já o pior…
Para saber mais:
Entrevista com Gita Mehta, no site randomhouse.com;
Extratos do livro Karma Cola, no site da Federação de Yôga de Santa Catarina.
Tags: Índia · livros · viagem3 comentários


3 comentários até agora ↓
[...] que a Índia tem muita coisa boa a ensinar, mas não podemos fechar os olhos para as injustiças e os perigos. Talvez por isso eu tenha gostado tanto das aulas da Uni-Yôga, há menos hipocrisia e mais [...]
Cara, primeiro foi a revista que sumiu, agora o livro.
Vamos comecar a fazer um livro de protocolo pra voce emprestar as coisas, que tal?
Abraço.
hehehe
Você tem razão, Anísio. Um livro de protocolo cairia bem. O pior é que ainda cometo o mesmo erro. Às vezes vem alguém e diz “olha, trouxe de volta aquilo que você me emprestou” e eu nem lembrava…
Abraço!
Francisco