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O trambolho

Publicado em 21/8/2009 por Francisco von Hartenthal

Imagine que um amigo muito querido tenta lhe convencer a usar um meio de transporte diferente. Algo que tenha surgido há um século atrás, baseado em uma tecnologia ainda mais antiga.

Você não gosta muito de coisas obsoletas e, de início, não dá bola. Mas outras pessoas insistem. Contam aquela história de fim do mundo, temperatura média do planeta e tal. Somando-se ao maldito sentimento de culpa do qual é tão difícil se livrar, você cede.

A princípio, parece um trambolho. O que lhe faz rir ao imaginar o Mr. Bean tentando entrar no elevador com um.

“Estou desacostumado”, você pensa, “afinal, é coisa que ninguém esquece.” E vai em frente.

Algumas semanas depois, seus joelhos parecem um pouco mais rígidos. “Melhor mudar o ásana de meditação.” Aquela velha dorzinha nas costas volta a incomodar e você começa a desconfiar de que a pressão sobre seus testículos não é tão inócua quanto dizem.

Desistir volta a ser uma opção, quando seu amigo lhe convida para um chá e leva a namorada, também adepta do trambolho.

Ela lhe conta que “em França” - assim mesmo, sem o artigo - ele é muito usado. “E na Alemanha… bem, todos sabem que na Alemanha…” Depois, conta da experiência dos estudantes colombianos com um entusiasmo cheguevariano. O que lhe faz pensar se ela não é uma prima cubana da Amelie Poulain.

Você não quer parecer ignorante e, pela manhã, olha pela janela: “Hoje não vai chover! Também não deve fazer sol! Se eu sair agora e levar uma roupa limpa para trocar, acho que dá para ir de trambolho.”

Os carros lhe atrapalham. “A culpa é deles!” Os pedestres lhe atrapalham. “Cidade provinciana!” As calçadas lhe atrapalham. “Falta planejamento urbano!” As ruas lhe atrapalham…

Logo, você participa de reuniões de trambolhos, as Trambolhadas. Os carros são seus inimigos, é preciso tomar o poder e fazer barulho. Talvez não nesta ordem.

Então, num domingo de manhã, você vai a um parque e vê uma criança aprendendo a andar de trambolhinho. Ela não quer, o pai insiste. Usar as pernas daquele jeito, naquela posição é, visivelmente, um movimento anti-natural. O pai a empurra, a criança quase cai. É uma luta de judô na qual apenas o trambolho pode aplicar ippon. “E o meu nem tem as rodinhas…”

Finalmente, a questão volta à sua mente. “O trambolho não é a solução.”

E agora?

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2 comentários até agora ↓

  • 1 Alexandre Montagna ago 22, 2009 às 2:05 am

    Cara, não sei o que mais me deixou curioso nestas 2h da madrugada de sábado: se a origem etimológica dessa esquisita palavra.. trambolho, ou se é o trambolho desse post.

    Um abração do seu amigo de Chapecó (ps.: está convidado a vir me visitar. Na minha garagem cabem dois carros e um trambolho).

  • 2 Francisco von Hartenthal ago 22, 2009 às 10:42 am

    Hahahaha!!

    Não conheço Chapecó, se um dia eu for, com certeza irei visitá-lo. De qualquer forma, nada nos impede de pedalar um trambolho. Um forte abraço!

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